Segunda-feira, 10 de Março de 2008

Um guia de restaurantes bem feito, ó

Não sei quem o faz ou fez e, confesso, descobri-o por mero acaso, via motor de busca. Parece-me que está actualizado mas, seja como for, é um dos melhores guias de restaurantes da zona de Lisboa que tenho visto. E dos restaurantes que lá estão, que nem são muitos, bastantes são para fumadores.

Aquilo deve ser algum aluno da Universidade Lusíada, a julgar pela linguagem juvenil e despreocupada, mas também poderá ser de algum professor ainda não muito entradote. Enfim, não interessa. Pelo menos até ver, este excelente guia está neste endereço e contém indicações tão preciosas como aquelas que a seguir se respingam, apenas para abrir o apetite.

Zé Barranquenho
Amadora
Av. Eduardo Jorge, 8D-2700 Amadora
(junto ao Metro da Falagueira)
934 913 018
15€
- Comidinha Alentejana muito bem feita. Tasco! É PRECISO MARCAR.
O Zé às vezes passa-se dos carretos...mas a filha atenua o estrago!

Muxaxo
Cascais Guincho
- Excelente vista. Paga-se por ela...e pelo pouco que se come.
Bom para levar a amázia!

Kais - Adega
Alcântara
R.Cintura Porto de Lisboa
25€
- Num armazém recuperado em cima restaurante e em baixo na Adega, come-se à javardona.
Rodízio de pratos tradicionais 30/40. Mesas compridas e um bocado barulhento...


Cumprimentos e agradecimentos ao ilustre e desconhecido autor. Fiquei cliente do guia.

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Arquive-se I



«As discotecas consideradas como "estabelecimentos de bebidas destinados a dança" com menos de 100 metros quadrados podem permitir fumar em todo o espaço, desde que cumpram os requisitos de sinalização, ventilação e extracção de fumo. Esta é a definição que consta de um acordo assinado na semana passada entre a Direcção-Geral de Saúde (DGS) e a Associação de Discotecas Nacional (ADN).

"As discotecas têm vários tipos de licenciamento e, no momento de aplicar a lei do tabaco, criou-se uma grande confusão. Por isso, pedimos à DGS para entrarmos em diálogo e chegarmos a um acordo quanto à interpretação", explica Francisco Tadeu, director executivo da ADN. "O que fizemos foi clarificar a lei, para que não restem dúvidas para os nossos associados e para evitar problemas em termos de vistorias e fiscalizações."

Assim, segundo o documento, a lei do tabaco é obrigatoriamente aplicada tendo por base a definição de discotecas como "locais de trabalho", "recintos de diversão e recintos destinados a espectáculos de natureza não artística" e "estabelecimentos de bebidas com espaços destinados a dança".

Quando consideradas "estabelecimentos de bebidas com espaços destinados a dança", com uma dimensão inferior a 100 metros quadrados, as discotecas podem optar por permitir ou não o fumo, desde que cumpram as regras quanto à qualidade do ar - ventilação e extracção do fumo - e tenham a sinalização adequada.

No caso de serem consideradas "estabelecimentos de bebidas com espaços destinados a dança" tendo mais de 100 metros e quando consideradas como "recintos de diversão e recintos destinados a espectáculos de natureza artística", as discotecas podem criar zonas de fumadores, com uma dimensão que será de 30% a 40% dos espaço total, consoante tenham ou não separação física.

As zonas para fumadores terão de estar identificadas através de dísticos, separadas fisicamente ou com um dispositivo de ventilação, desde que autónomo - para evitar que o fumo se espalhe - e uma ventilação para o exterior.

De acordo com a Lusa, o documento refere ainda que a melhor opção para espaços maiores é a separação física, uma vez que "quanto maior o espaço, mais difícil será a possibilidade de criar uma área para fumadores sem separação física cumprindo os requisitos da ventilação e extracção."

"Trata-se de uma clarificação. Assim, os nossos associados sabem como interpretar a lei e como terão de agir", explica Francisco Tadeu, ressalvando, no entanto, que entre os cerca de mil espaços de diversão representados pela ADN não tem havido grandes problemas. "Estamos a cumprir a lei. Os nossos associado estão a aplicar as normas em vigor. É uma pena termos que dividir as pessoas que fumam e não fumam, porque são espaços de diversão, mas temos que o fazer."

Isto não significa que a associação esteja contente com a lei do tabaco. "Esta é a lei que temos e enquanto estiver em vigor temos que a cumprir, daí a necessidade de esclarecer a sua interpretação. Mas não desistimos de lutar pela mudança na lei", afirma Francisco Tadeu.

Neste momento, a associação encontra-se a recolher estudos de forma a tentar provar que a lei do tabaco contraria a lei da qualidade do ar. "Para pedir uma mudança da lei à Assembleia da República temos que ter uma fundamentação", explica Francisco Tadeu, sem perder a esperança
.|»

Diário de Notícias, 10.03.08


Esta colagem integral, de texto e imagem, tem todo o interesse histórico e justifica-se pelos desenvolvimentos que se adivinham num futuro não muito distante. Veremos quanto tempo dura esta "modalidade" abaixo dos 100 metros quadrados ou quando e quanto variará a percentagem de espaço para fumadores em função do total. Isto é realmente muito giro, porque muda semana sim semana não. Siga a dança.

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Sexta-feira, 7 de Março de 2008

Museu do Fumador (França)

Le Musée du Fumeur



Le musée du Fumeur
7 rue Pache
75011 Paris
(Métro Voltaire, sortie Roquette)
Tél. (+33) 01 46 59 05 51
Tél. (+33) 01 43 71 95 51
Fax (+33) 01 43 73 24 35
• Ouvert tous les jours (sauf lundi) de 14h à 19h
• Entrée : 4 euros / T.R. 3 euros
• Entrée libre à la librairie-boutique
• Fermé le 25 décembre, le 1er janvier et le 1er mai
• Fermé la 1re semaine de janvier et du 30 juillet au 20 août inclus


Exibir mapa ampliado

Não se iludam, camaradinhas. Aposto que nem neste museu é permitido fumar. Mas vá lá. A gente respira fundo e aguenta uma meia horita sem respirar, lá dentro.

Créditos pela boa nova ao excelente blog do companheiro pintor Fernando Campos, do blog Sítio dos Desenhos.

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"O Sítio do Fumador"

Quinta-feira, 6 de Março de 2008

Arqueologia da fumaça - IV


link

Companheiros, vocês ponham os olhinhos nisto. Um anúncio da Philip Morris com mais de oito minutos, oito!

Nele se diz, entre outras pérolas com mais de cinquenta e tal anos, que aquela marca é excelente para a saúde em geral e para o catarro em particular! Que não dá ressaca! Que abre o apetite (e fecha-o, se um gajo for gordo). Que um porradal de médicos e cientistas estudaram, analisaram, espiolharam o tabaquito lá da fábrica e acharam aquela merda espantosa, excelente, um primor, mesmo a calhar para casos de tuberculose, rouquidão, calos, piorreia, queda do cabelo, mamas descaídas, hemorroidal, inveja e mau-olhado.

Pessoal, é de ver. Já está na Galeria, pois claro. Porra. Que documento. Como dizia o outro: 'tou marabilhado.

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Terça-feira, 4 de Março de 2008

Arqueologia da fumaça - III



Equinócio

Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Em que apetece um ombro o pano de um teatro
um passeio de noite a sós de bicicleta
o riso que ninguém reteve num retrato

Folheia-se num bar o horário da Morte
Encomenda-se um gin enquanto ela não chega
Loucura foi não ter incendiado o bosque
Já não sei em que mês se deu aquela cena

Chega-se a este ponto Arrepiar caminho
Soletrar no passado a imagem do futuro
Abrir uma janela Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo


Rola mais um trovão Chega-se a este ponto
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre
Em que a rota do Sol é a roda do sono
Chega-se a este ponto em que a gente não sabe


DO TEMPO AO CORAÇÃO, GUIMARÃES EDITORES, LISBOA, 1966, P. 31
David Mourão Ferreira

«David de Jesus Mourão-Ferreira nasceu em Lisboa em 1927 e faleceu, na mesma cidade, em 1996. Frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa onde se formou em Filologia Românica. Foi professor desta mesma Faculdade.

David Mourão-Ferreira distinguiu-se como poeta, professor e deixou uma obra considerável a nível da crítica literária.»



Fonte (copy/paste): A Poesia Eterna, por Marco Dias.

Imagem (autoria desconhecida) alojada no site Janela Urbana.

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Letras a 60 dias

Confesso que já por diversas vezes tive o indicador em cima do botão. Um click, a confirmaçãozita da ordem ("are you sure?") e pronto, bingo: acabou-se o Baforadas, foi à vida o sítio. Finito. Que se lixe.

Claro que me chateia atirar com este trabalho todo borda fora, principalmente com os mapas, e de mais a mais agora que acabo de (sim, pois, eu sei, finalmente) pôr on-line os ficheiros POI.

Afinal, para quê e para quem esta trabalheira toda? Valerá a pena? Qual é o troco ou será que existe alguma espécie de troco, ao menos?

Bem, assim uma resposta curta e grossa? Não. Não há. O que há, é o costume, o "bom" e velho costume português da carneirada, a técnica portuguesa da "Maria vai c'as outras"; ou seja, depois de uns quinze dias, talvez três semanas, no máximo, de estrebuche e de berreiro sortido, o português típico, neste caso o fumador, acabou por meter a viola no saco e por ir à vidinha, na maior das calmas, perfeitamente conformado com a sua sorte.

Ainda a "lei do tabaco" não fez três meses, ainda nem sequer lhe rebentaram os dentinhos de leite, e já o fumador português acha normalíssimo rapar um frio de rachar à porta do centro comercial mais fino ou da tasca mais rasca do país, enquanto despacha à pressa o seu cigarrito criminoso. A lavagem ao cérebro tem sido de tal forma eficaz (como se sabe, a lavagem é tanto mais eficaz quanto menor for a quantidade de matéria a lavar), que são os próprios fumadores que, pressurosamente, se aprestam a fornecer "opiniões" favoráveis às extraordinárias medidas de "protecção" da "saúde pública" que inventam as chamadas autoridades. Perdão. Retiro o termo "inventam"; não inventam nada; quem inventou esse tipo de tretas não foram as nossas autoridades; sequer a invenção é coisa recente; já nos idos de 30 do século passado este género de patranhas fez furor e contribuiu, pelos vistos decisivamente, para a ascensão do Partido (Nacional) Socialista ao Poder. Adiante.

Já se notam os típicos sintomas de lassidão, o deixandar da ordem, aquilo que nos distingue, enfim, no chamado concerto das nações. O Português adora, pelos vistos e como de novo se verifica, levar porrada nos cornos. É cá um palpite que eu tenho, apenas isso, mas "quer-me parecer" que, de resto, o Português típico não quer nem deseja outra coisa que não bordoada, cacete, chicote, rédea curta. Andar de mansinho e falar pianinho. Isto da beata murcha e apagada, não é caricatura - é paradigma. Refilou por desfastio, mas só um bocadinho e até levar a primeira cacetada; assim que a primeira lhe acertou, o portuguesito amochou, embatucou, calou. O portuguesito é assim mesmo. Um caladito. Um morcãozito que verga a mola ao primeiro sinal de borrasca. É o gajo que não quer chatices com ninguém, por definição, e muito menos com gente de farda ou de cifrões, o que vem a ser quase toda a gente.

Ao princípio, ainda havia umas lérias, umas discussões, umas tertúlias, e assim. Agora, trinta e tal dias depois, piu. Népia. O excelente fórum cá do sítio, por exemplo, essa linda ferramenta que tive a peregrina ideia de criar, ali está positivamente às moscas, a colher e a acolher anúncios pornográficos, muito útil para quem procura extensões penianas e coisas que tais, totalmente inútil para e sem nada a ver com o tabaco, os fumadores ou o fumo. Enfim, uma tristeza. Mais uns dias e, se não for o site inteiro, pelo menos o raio do fórum lá terá de ir de vela, visto não estar ali a fazer nada.

De todos os militantes da minha tertúlia particular, apenas resta um elemento que boicota sistematicamente os locais reservados a não fumadores. Adivinhem quem. Pois. Eu. Moi. Toda a gente, um por um, uma por uma, por isto e por aquilo, principalmente por aquilo, se foi rendendo à "inevitabilidade" das circunstâncias, ou lá o que é. Ah, sim? Pois eu cá não vou a restaurantes ou cafés onde não se possa fumar de todo. De todo.

Já que estamos em maré de balanço dos 60 dias, por assim dizer, referência a outra tanga também aqui antes mencionada, aquela dos clubes privados; até agora, pelo menos, não se viu nada. Pode ser que, um destes dias (ou meses, ou anos, ou décadas), apareça por aí qualquer coisinha, mas sinceramente não me parece; aquilo deve ter sido lá um arremedo daquela prestigiosa associação de comerciantes. É outra característica portuguesa: o entusiasmo inicial. "Vamos fazer isto e aquilo?", ocorre a alguém perguntar, amiúde; "'bora!", é a invariável, arrebatada, possessa, histérica, patriótica resposta dos circunstantes. Bom, mas a coisa dá trabalho... Ah... Ehrrr... Dá trabalh.. Aaahhh... E não é p'ra dar lucro... Eeeee... Não é p'ra dar lucr... Eeee... Ehrrr... Bem...

Pois. Nada feito. Esquece lá isso, meu. 'Bora lá fazer mazé mais uma esplanada c'um ganda som, pomos uma P.A. com 2000 por canal, 4 canais em torre, tázaver, meu, prontsh, aquilo assim é ao ar livre, tázaver, a gente cobre tudo com lonas (olha, inda por cima é à borliú, os gajos das marcas pagam as lonas e tudo), e pronto, ficamos c'uma discoteca baril, aquilo é ao ar livre, já tinha dito?, é fumadores, é não fumadores, até podemos servir uns comes, uns burriés, e assim, hã, mais fixe não podia, yá?

São uns cómicos, estes militantes da causa da saúde pública, estes adeptos da protecção contra o "fumo passivo". Alguns deles, note-se, muitos deles até, verdadeiros fumadores, não de tabaco, essa horrível substância, mas de outras, hoje em dia socialmente aceites e bem vistas. Veremos, já no próximo Verão, que se aproxima a passos largos, como irão conviver - certamente com alegria e em sã convivência - as duas comunidades de viciados, os toxicodependentes e os maníacos da saúde. Curioso, e sociologicamente porventura interessante, poderá vir a ser observar também a forma como interagem estes dois grupos connosco, fumadores; sinceramente, palpita-me que não vão gostar muito de nos ver ali, nas "suas" esplanadas. Palpita-me mais: palpita-me que vai haver porrada de criar bicho, no Verão, por essas esplanadas fora, no nosso querido Portugal. Não é por nada. É cá por coisas.

Por fim, e apenas para aproveitar a boleia do post, gostaria de deixar aqui uma pergunta que me ocorreu enquanto dormia. Diz-me a experiência que não se deve deixar engasgadas perguntas que nos ocorrem durante o sono. Não sei porquê, mas pronto. A pergunta é a seguinte: os bombeiros podem fumar em serviço?

E, já agora: é permitido fumar nos incêndios?

Responda quem não souber.

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Domingo, 2 de Março de 2008

A beleza emudece





Imagem de Sofia (em Imeem)

Galeria de som, vídeo e imagem (em construção).

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Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

El Pino a pino


http://www.youtube.com/watch?v=qREkvLzu_dU

Este restaurante estava em território português, a 3 km da fronteira espanhola. Os espanhóis vinham cá comer e beber, deixar receita e impostos. A ASAE fiscaliza colheres de pau, tábuas de plástico, lavagens de casa-de-banho quatro vezes por dia, coisas estranhíssimas e importantíssimas e ainda, é claro, o cigarrito da ordem.

Os proprietários do restaurante mudaram-se para Espanha e estão agora a 7 km da fronteira, mas do lado de lá. Ainda por cima, e à boa maneira espanhola, ali pode-se fumar à vontade.

Os portugueses, se quiserem, que se desloquem agora e deixem ao governo espanhol os seus impostos. Não apenas os impostos dos belos petiscos, das belas comidinhas, da bela cozinha que lá se continua a fazer sem qualquer entrave, como os impostos da estupidez, os encargos da boçalidade, os entraves da cegueira e ainda os incómodos da mais pura e dura imbecilidade.

Portugal arrisca-se a transformar-se no mais higiénico e purista dos desertos, livre de todo o mal e de todo o fumo, sem um único restaurante para fumadores mas também sem um único restaurante ou, em última análise, sem seja o que for, em suma, um sítio lindo para os senhores inspectores da ASAE jogarem à bisca lambida uns com os outros ou, quem sabe, para se inspeccionarem mútua e detalhadamente.

O mapa do fumador acaba de se internacionalizar, por conseguinte. A localidade de El Pino entrou no mapa do Portugal fumante. Se alguém souber o nome do restaurante, o endereço exacto e o número de telefone do estabelecimento, o pessoal dos puros agradece.


Exibir mapa ampliado

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Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

Arqueologia da fumaça

(...)
Quando não estava no Laboratório estava na Biblioteca, na mesma cadeira, a que enfrenta a porta de entrada da sala mais recolhida. Ao entrarmos na primeira sala fazia-se anunciar pelo aroma doce do fumo do cachimbo. De tons azulados desenhava
no ar figuras que os olhos acompanhavam, por vezes sonhadores.
Por detrás do fumo olhava para nós...muitas vezes...também doce. Outras vezes crítico ou irónico, mas sempre acolhedor, amigo, generoso e Professor.
(...)
Era o dia em que o Professor vestia a bata. Empunhava numa mão o cachimbo e na outra o martelo de reflexos e avançava para o doente. Quando começava a ouvir o relato da história apoiava o pé na trave lateral da cama, começava a carregar o cachimbo, calcava o tabaco e depois acendia o fósforo, lentamente. Por vezes ficava suspenso nas palavras do interno e deixava apagar o fósforo que acabava por arder num sacrifício inútil. Finalmente o fumo surgia como se fosse revelador de uma decisão interna, conciliar, que levava à formulação das hipóteses de diagnóstico. Eram bons momentos de ensino prolongados, por vezes, na biblioteca à procura da confirmação das hipóteses.


Excertos de «Prof. João Alfredo Lobo Antunes - Uns olhos por detrás do fumo», por Alexandre Castro Caldas, Director de Serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria, Lisboa; Professor Catedrático de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
Publicação de Sociedade Portuguesa de Neurologia, Revista Sinapse, Maio de 2002.

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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2008

Fumos privados, públicas virtudes

A Lei 37/2007 refere por dez vezes o termo "público", sob diversas formas e circunstâncias: atendimento directo ao público, instalações afectas ao público, venda ao público, área destinada ao público, transportes públicos, contributo público, serviços públicos.

Como (muito bem) diz a Associação de Bares e Discotecas da Zona Histórica do Porto (ABZHP), a mais do que evidente questão, a forma mais simplezinha de tornear os constrangimentos legais, no que diz respeito a fumar, é... fazê-lo em privado. Ou seja, se a "lei do tabaco" - no seu espírito (persecutório) e na sua letra (fundamentalista) - proclama como objectivo principal a protecção da "saúde pública", então não haverá nada a objectar - nem do ponto de vista legal nem, muito menos, do ponto de vista moral - a que os cidadãos fumem os seus cigarros e charutos em espaços privados. Se ainda não é proibido cada um fumar na casa de cada qual, e se podem ser legalmente constituídos espaços e associações sem fins lucrativos e de carácter privado, isto é, aos quais apenas os respectivos membros podem ter acesso, então fácil será concluir que não existe o mínimo entrave a que simples grupos de cidadãos se associem e criem os seus próprios espaços de convívio, privados e reservados.

Está tudo no tal étimo "público". Em havendo dúvidas, basta puxar de um dicionário:

«1. relativo ou pertencente a uma comunidade
2. relativo ou pertencente ao governo de um país, estado, cidade, etc.
3. que pertence a todos; comum
p. opos. a privado
4. que é aberto a quaisquer pessoas
5. sem carácter secreto; manifesto; transparente
6. universalmente conhecido
7. o homem comum, do povo
8. conjunto de pessoas; o povo de determinado lugar
9. conjunto de pessoas com características ou interesses comuns »
(Dic. Houaïss, 2004)

Na minha casa, pelo menos até ver, apenas entra o meu "público" privado, gente que eu sei não vai lá para me chatear a moleirinha. Quem me adentra a porta, já sabe que irá levar com uma fumarada homérica pela proa. Posso convidar quem eu quiser, quando quiser, como quiser, para umas cartadas até nascer o sol, para uma sessão de palheta até às quinhentas, para umas tainadas e se calhar umas copofonias valentes. Posso fazer tudo isso e muito mais, na minha própria casa e na casa dos meus amigos; ou podemos, nós outros, em não havendo já espaço para tanta gente, alugar um sítio para o efeito. Qual é o problema? O que têm a dizer, quanto a isso, aqueles que tanto se preocupam com a minha rica saudinha? Posso ou não posso?

Então?

E se, por mero acaso, eu não gostar de música em altos berros - como não gosto - e conhecer uma data de gente que não só mas também - como conheço - e, ainda por cima e também por mero acaso, um desses bacanos tiver dinheiro até dizer chega? Hem? Que me dizeis, vós outros, nesse caso? O tipo não pode alugar - ou mesmo comprar - um espaço, uma loja, um sítio qualquer para juntar os amigos? E, sendo todos nós fumadores, estando numa casa particular (onde, repita-se e vinque-se bem) o respeitável "público" não entra, então não podemos fumar ali à vontade? E se quisermos, por exemplo, transformar as nossas tertúlias periódicas em clube, com estatutos e tudo (ou sem eles, vem a dar no mesmo), como é? Algum problema?

O ridículo desta lei fica desde logo, por conseguinte, mais do que patente. A óbvia hipocrisia dos fundamentalistas, idem aspas, e pelos mesmos motivos; veremos o que irão agora inventar mais, na sua sanha cega contra a liberdade individual, no seu ódio feroz à diferença e aos pequenos prazeres da vida, na sua paranóia tóxica de raiz nacional-socialista, na sua maldade atávica, no seu sadismo travestido de altruísmo.

Como diriam os maoístas, nos idos de 70, que mil clubes privados floresçam! O associativismo deve avançar a todo o vapor! Em suma: o horizonte é fumarento, camaradas!

Declaração de voto, por assim dizer.
Se bem que entendendo as motivações, devo dizer que não me agrada nada a "artistice" legal que a referida ABZHP se prepara para lançar e, atrás dela, certamente, outro tanto farão as demais associações congéneres. Uma coisa é expor o absurdo desta lei grega (do Comissário grego da UE e do comissário grego português), outra bem diferente é "tornear" a dita lei com expedientes de legalidade duvidosa. Aquela do "sócio na hora" que, a troco de um Euro, terá direito a uma bebida grátis, bem, é um poucochinho rasca, para não dizer outra coisa. Acho perfeitamente que se ridicularize a lei e o legislador, acho pessimamente que se tente fazer passar as pessoas por parvas.
Mas enfim, paciência, talvez esse truque baixo esteja ao nível dos novos inquisidores. Pode até ser que nem isso entendam.

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Domingo, 10 de Fevereiro de 2008

Porquê?

Porque sim, talvez. Um cigarro é uma estupidez necessária, como um trovão, um desatino, a pateada de um cavalo ou a chuva no Verão.
Porque há ocasiões em que não resta mais nada. É o que sobra quando não sobra coisa alguma. É o último pedido, o ritual derradeiro, aquilo que ainda é permitido, por fim, por exemplo, a um homem que vai ser fuzilado. É o prazer absoluto de quem vai morrer daí a pouco, para abreviar.
Porque se torna necessário, e urgente, e indispensável, quando já nada mais faz o mais ínfimo dos sentidos, e também porque idem idem aspas aspas em situação inversa ou no seu contrário. É o refúgio breve do guerreiro exausto, é a trégua unilateral do soldado, é a terra de ninguém individual, pessoal e intransmissível, é um pouco de ordem no caos do quotidiano, é um excesso delicioso na bovina passividade da urbe frenética, esfíngica, horrorosa.
Porque fumo? Fumo, porque é bom. Porque gosto. Porque é uma companhia sólida. Porque nunca falha.
Ou seja: porque sim, sem dúvida.

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Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

Uma "cacha" de escacha

"Cacha": a lei 37/2007 contém um piqueno lapso - técnico ou linguístico, à escolha - que implicará a sua revisão por parte de quem a promulgou, ou seja, o próprio parlamento. Ora, se uma lei está em processo de revisão, se contém vícios de forma ou de conteúdo, a consequência normal e inerente será a sua suspensão imediata.

Oiçam duas peças que passaram hoje de manhã no RCP, num trabalho da autoria do jornalista Augusto Freitas de Sousa. Intervenções do presidente do Sindicato dos Juízes, António Martins, e do ex-bastonário da Ordem dos Advogados, Rogério Alves.


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Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2007

Smintair: Smoker's International Airways

Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

Houston, we don't have a problem

E aqui, pode?


Depois do cigarro sem fumo, aí está outra esplêndida ideia: a cabine cigarrónica. Aguardam-se, ansiosamente, novas ideias, outras engenhocas e "gadgets" que possam contribuir para a felicidade dos fumadores e para a não menos dos outros. Ali o "ansiosamente", está bem de ver, surge na frase anterior "derivado ao" vício.

Estas cabines foram pensadas mais para locais de trabalho do que para restaurantes e afins, mas sempre gostaria de entender porque diabo não existem já em aeroportos e gares, ou mesmo em aviões e comboios, por exemplo. O problema não é a inestimável saúde do "não-fumador"? Não é uma questão de "saúde pública"? E então, não se gastam milhões em coisas bem mais caras e de efeitos bem menores... ou totalmente nulos? E se for o próprio ou os próprios a pagar do seu bolso, também não pode?

Ah, pois, é a lei, e tal, e tal, e tal.

Publicado no Apdeites em 17.12.07.

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Serviço Público

O blog Arrastão está a coligir dados para um ROTEIRO DO FUMADOR.

Se conhecer algum restaurante, café, bar, cervejaria, petiscaria, marisqueira, churrascaria, pizaria, gelataria, tasca, "boite", discoteca, prostíbulo*, cabaret, casa-de-pasto, pensão, hotel, albergue ou qualquer outro lugar público onde se possa fumar (cigarros), contribua para esta (verdadeira) causa: indique o nome e a localização do estabelecimento.

* "Prostíbulo" é uma palavra fina para designar aquilo que também é conhecido vulgarmente por bordel, casa de meninas, casa-de-putas, putedo, e não tão vulgarmente assim como alcouce, açougue, castelo, conventilho, alcoceifa, covil, harém, liceu (!), mancebia, porneia, porneu, putaria, puteiro, randevu (?), lupanar, serralho.

Renúncia de responsabilidades/Disclaimer
O Apdeites, enquanto sítio de respeito em geral e de tento na língua em particular, declina liminarmente qualquer espécie de responsabilidade que lhe possa ser assacada pelo facto de transcrever neste "post" o mais do que insuspeito, extremamente respeitável e científico até ao tutano "Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa". À cautela, que os tempos de vigilância pidesca não vão para brincadeiras, mais declara - o autor do dito sítio - que não poderá nunca ser acusado de incitação à prostituição, ou palermice que o valha, pelo simples facto de aqui ter arrolado uma série de sinónimos para a expressão "casa-de-putas", já que a finalidade deste arrolamento é meramente pedagógica e nunca por nunca outra merda qualquer. Por conseguinte, caros vigilantes da blogosfera, rameira que vos pariu.


Publicado no Apdeites em 17.12.07

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Domingo, 9 de Dezembro de 2007

O primeiro de Janeiro

11º Mandamento: Não Fumarás!
No próximo dia 1, termina oficialmente o maior problema que a humanidade enfrenta e oficiosamente deixam de existir quaisquer outros de semelhante gravidade. Pela primeira vez na História, os mais bem intencionados dos seres humanos conseguirão tornar o planeta Terra habitável, saudável ou, numa palavra, agradável.

Como sempre acontece quando um problema é resolvido, também neste caso algumas vozes se levantam em protesto; bem, não se levantam lá muito, ele é mais uns murmúrios e umas rosnadelas, e assim. Ainda restam por aí uns quantos (pouquíssimos) criminosos que alvitram coisas vagas e soezes como o seu "direito à escolha", por exemplo; que "nos meus pulmões mando eu", dizem eles; que se alguém quer dar cabo da sua própria saúde, isso é com cada qual, dizem eles; dizem também, entre duas baforadas do seu nojento vício, que os antitabagistas militantes são uma cambada de pides ressabiados, delegados do Santo Ofício no armário, patrulheiros higienistas, sádicos, pervertidos, racistas, nazis.

Tretas. Não é nada disso.

A legislação está aí, clara e transparente, os meios de repressão a postos, a opinião pública em geral perfeitamente formatada e de acordo: a partir do próximo primeiro de Janeiro, fumar é crime. Pim.

Aquilo que por fim se conseguiu não tem nada a ver com a liquidação de qualquer liberdade individual, muito menos a liberdade de escolha ou o direito a cada um decidir aquilo que é melhor para si próprio. O que agora toma forma de lei geral, universal, transversal, vertical, horizontal, etc. e tal, está completamente isenta de qualquer intenção menos abonatória: não existe nela qualquer atitude persecutória em relação a modos de vida, hábitos pessoais, idiossincrasias ou sequer ao carácter específico deste ou daquele indivíduo.

Fumar não é, nunca foi, um acto individual; pelo contrário, é iminentemente colectivo, pela simples razão de que se um fuma, então toda a gente em volta dele está fumando também. Por conseguinte, em nome da liberdade e da saúde dos outros, muitos, é absolutamente necessário que alguns, poucos, deixem de empestar o ambiente. Isso é igualmente benéfico para os próprios, nitidamente, e é algo que apenas espíritos doentios e mentes maldosas poderão persistir em negar ou sequer objectar alguma coisa a respeito. É também, ou principalmente, a esses mesmos viciados que se dirige a legislação do primeiro de Janeiro: há que fazê-los ver a luz, forçá-los a viver num ambiente saudável ou, em última análise, em não sendo outra coisa possível, espetar com eles no chilindró. Talvez assim se curem por si mesmos, sem dar outras despesas e maçadas à boa sociedade. Nos casos de maior renitência ou relapso, e ainda no que diz respeito àqueles que se atreverem a levantar cabelo, há que persistir na cruzada, sem desfalecimentos nem hesitações, uns banhos gelados de agulheta, umas chapadas nas trombas ou umas quantas pauladas valentes pelos lombos. Se não vai a mal, pior para eles, essa corja abjecta.

Os números falam por si e os cadáveres estão aí, à vista de quem quiser ver, para o provar à saciedade. Essas cifras, essas terríveis estatísticas, não foram nunca exageradas, mistificadas, aldrabadas. As fotografias dos cadáveres, a 256 cores, ou mais, ilustrando o cancro do pulmão e de outras maleitas ainda mais aborrecidas, não foram retocadas ou de alguma forma trabalhadas para inspirar terror. Quase nada nessas fotos ou nos filmes, documentários, estudos, documentos, palestras e conferências sobre o assunto, e também quase nada nas manifs de catarse do Mal brônquico se refere à emissão e à inalação de milhões de toneladas de fumos dos escapes dos automóveis ou dos altos fornos industriais. A seu tempo, é claro, também resolveremos essas chatices, mas para já aquilo que pretendemos - haja calma, uma coisa de cada vez - é lixar os fumadores de uma vez por todas.

Note-se que absolutamente nenhuma das pessoas mais dedicadas à causa do antitabagismo tem a mais ínfima espécie de ressentimento pelo facto de lidar mal com o prazer em geral e com os prazeres alheios em particular. Ninguém é movido por instintos predatórios, e muito menos com raiva incontrolável ou mal resolvida, contra aquilo a que os monomaníacos chamam "pequenos prazeres da vida". Nem um só desses justos militantes sente o mais ínfimo gozo por poder, com autoridade moral, institucional e legal, mandar alguém apagar um cigarro. Nenhum, mas absolutamente nenhum, imagina sequer estar ele próprio viciado, já a um nível de dependência física e psíquica, no poder do mando; nenhum necessita da sua dose diária, cada vez mais sistemática e obsessiva, desse pó de mando, desse apetitoso autoritarismo. Todas estas maldosas alegações não passam, por conseguinte, de efeitos colaterais de que tipicamente padecem os fumadores.

Enfim, companheiros: conseguimos. Essa é que é essa. Poderemos agora, porque atingimos os nossos objectivos, tranquila e impunemente confessar que o velho e relho argumento do "fumo passivo" era uma patranha para enganar totós. Foi uma galga muitíssimo bem esgalhada (hihihi, ai que riso) e serviu na perfeição para a nossa estratégia, superiormente delineada. Sim, porque afinal, reconheçamo-lo sem medos, se não fosse essa belíssima e inocentérrima patacoada, não teria sido nada fácil chegar a isto, a este nosso primeiro primeiro de Janeiro não-fumador.

Mas ai. Nem de propósito. Agora andam por aí uns tipos (mas esta malta não desiste?) a apregoar uma coisa que é os cigarros sem fumo. Diacho. Bem, e agora, hem, companheiros? O que havemos de inventar para lhes lixar o esquema? Com isto, onde já se viu, assim o paleio de chacha já não cola. Há que derrubar, e é já, essa coisa dos "cigarros sem fumo", caramba! Há que pôr essas cabecinhas a trabalhar, como dizia o outro, "é urgente", vá lá, depressa, desenrasquem aí outra coisinha mimosa, assim uma frasezinha lapidar do género da outra, sei lá eu bem, assim de repente, ó chatos do caraças. Sinceramente, não me ocorre porra nenhuma.

Isso depressinha, ouvistes? Quando não, não tarda nada temos aí esses malditos viciados outra vez a dar à nicotina, ao nosso lado no café, no autocarro, no avião, na mesa do lado, na casa do lado, em suma, em todo o lado. E isso, é claro, nós não vamos permitir. Ai isso é certinho.


ó tu que fumas, pá!



Cigarro sem fumo: notícia no Daily Mail e artigo no site Escape.
Imagens de Daily Mail e blog Último Reduto.

Estatísticas
Tempo que levou a escrever este panfleto: 6 cigarros.
Tempo que leva a ler esta porcaria: 6 Smarties (cuidado com o fígado).
Esperança de vida do autor: 24 horas, pelo menos.
Esperança de vida do leitor: 150 anos, pelo menos.


Publicado no Apdeites em 09.12.07.

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