Segunda-feira, 10 de Março de 2008

Arquive-se I



«As discotecas consideradas como "estabelecimentos de bebidas destinados a dança" com menos de 100 metros quadrados podem permitir fumar em todo o espaço, desde que cumpram os requisitos de sinalização, ventilação e extracção de fumo. Esta é a definição que consta de um acordo assinado na semana passada entre a Direcção-Geral de Saúde (DGS) e a Associação de Discotecas Nacional (ADN).

"As discotecas têm vários tipos de licenciamento e, no momento de aplicar a lei do tabaco, criou-se uma grande confusão. Por isso, pedimos à DGS para entrarmos em diálogo e chegarmos a um acordo quanto à interpretação", explica Francisco Tadeu, director executivo da ADN. "O que fizemos foi clarificar a lei, para que não restem dúvidas para os nossos associados e para evitar problemas em termos de vistorias e fiscalizações."

Assim, segundo o documento, a lei do tabaco é obrigatoriamente aplicada tendo por base a definição de discotecas como "locais de trabalho", "recintos de diversão e recintos destinados a espectáculos de natureza não artística" e "estabelecimentos de bebidas com espaços destinados a dança".

Quando consideradas "estabelecimentos de bebidas com espaços destinados a dança", com uma dimensão inferior a 100 metros quadrados, as discotecas podem optar por permitir ou não o fumo, desde que cumpram as regras quanto à qualidade do ar - ventilação e extracção do fumo - e tenham a sinalização adequada.

No caso de serem consideradas "estabelecimentos de bebidas com espaços destinados a dança" tendo mais de 100 metros e quando consideradas como "recintos de diversão e recintos destinados a espectáculos de natureza artística", as discotecas podem criar zonas de fumadores, com uma dimensão que será de 30% a 40% dos espaço total, consoante tenham ou não separação física.

As zonas para fumadores terão de estar identificadas através de dísticos, separadas fisicamente ou com um dispositivo de ventilação, desde que autónomo - para evitar que o fumo se espalhe - e uma ventilação para o exterior.

De acordo com a Lusa, o documento refere ainda que a melhor opção para espaços maiores é a separação física, uma vez que "quanto maior o espaço, mais difícil será a possibilidade de criar uma área para fumadores sem separação física cumprindo os requisitos da ventilação e extracção."

"Trata-se de uma clarificação. Assim, os nossos associados sabem como interpretar a lei e como terão de agir", explica Francisco Tadeu, ressalvando, no entanto, que entre os cerca de mil espaços de diversão representados pela ADN não tem havido grandes problemas. "Estamos a cumprir a lei. Os nossos associado estão a aplicar as normas em vigor. É uma pena termos que dividir as pessoas que fumam e não fumam, porque são espaços de diversão, mas temos que o fazer."

Isto não significa que a associação esteja contente com a lei do tabaco. "Esta é a lei que temos e enquanto estiver em vigor temos que a cumprir, daí a necessidade de esclarecer a sua interpretação. Mas não desistimos de lutar pela mudança na lei", afirma Francisco Tadeu.

Neste momento, a associação encontra-se a recolher estudos de forma a tentar provar que a lei do tabaco contraria a lei da qualidade do ar. "Para pedir uma mudança da lei à Assembleia da República temos que ter uma fundamentação", explica Francisco Tadeu, sem perder a esperança
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Diário de Notícias, 10.03.08


Esta colagem integral, de texto e imagem, tem todo o interesse histórico e justifica-se pelos desenvolvimentos que se adivinham num futuro não muito distante. Veremos quanto tempo dura esta "modalidade" abaixo dos 100 metros quadrados ou quando e quanto variará a percentagem de espaço para fumadores em função do total. Isto é realmente muito giro, porque muda semana sim semana não. Siga a dança.

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Quinta-feira, 6 de Março de 2008

Arqueologia da fumaça - IV


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Companheiros, vocês ponham os olhinhos nisto. Um anúncio da Philip Morris com mais de oito minutos, oito!

Nele se diz, entre outras pérolas com mais de cinquenta e tal anos, que aquela marca é excelente para a saúde em geral e para o catarro em particular! Que não dá ressaca! Que abre o apetite (e fecha-o, se um gajo for gordo). Que um porradal de médicos e cientistas estudaram, analisaram, espiolharam o tabaquito lá da fábrica e acharam aquela merda espantosa, excelente, um primor, mesmo a calhar para casos de tuberculose, rouquidão, calos, piorreia, queda do cabelo, mamas descaídas, hemorroidal, inveja e mau-olhado.

Pessoal, é de ver. Já está na Galeria, pois claro. Porra. Que documento. Como dizia o outro: 'tou marabilhado.

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Terça-feira, 4 de Março de 2008

Arqueologia da fumaça - III



Equinócio

Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Em que apetece um ombro o pano de um teatro
um passeio de noite a sós de bicicleta
o riso que ninguém reteve num retrato

Folheia-se num bar o horário da Morte
Encomenda-se um gin enquanto ela não chega
Loucura foi não ter incendiado o bosque
Já não sei em que mês se deu aquela cena

Chega-se a este ponto Arrepiar caminho
Soletrar no passado a imagem do futuro
Abrir uma janela Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo


Rola mais um trovão Chega-se a este ponto
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre
Em que a rota do Sol é a roda do sono
Chega-se a este ponto em que a gente não sabe


DO TEMPO AO CORAÇÃO, GUIMARÃES EDITORES, LISBOA, 1966, P. 31
David Mourão Ferreira

«David de Jesus Mourão-Ferreira nasceu em Lisboa em 1927 e faleceu, na mesma cidade, em 1996. Frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa onde se formou em Filologia Românica. Foi professor desta mesma Faculdade.

David Mourão-Ferreira distinguiu-se como poeta, professor e deixou uma obra considerável a nível da crítica literária.»



Fonte (copy/paste): A Poesia Eterna, por Marco Dias.

Imagem (autoria desconhecida) alojada no site Janela Urbana.

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Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

Arqueologia da fumaça - II

Houve aí um vizinho que recebeu uma visita estranha: alguém googlou quantos maços de tabaco são precisos para matar uma pessoa e foi, sabe-se lá por que bulas, parar àquele blog.

Pois bem, resolvi fazer as contas ao meu caso particular. Assim por alto, nada de científico, bem entendido.

Ora bem. Comecei a fumar, por brincadeira, aí por volta dos seis ou sete anos. Não conta. Até aos doze ou treze, talvez, era assim uma coisa esporádica, de vez em quando, meio às escondidas; portanto, está fora, é melhor nem contar com isso. Mas pronto. Vamos apontar aí para os quinze ou dezasseis como a idade em que de facto comecei a fumar todos os dias, sistematicamente, pelo menos um maço por dia. Tenho a certeza absoluta de que em 1977 já fumava mais do que isso diariamente. Aos 20 anitos, já andava alegremente na média de 2 maços por dia. Aos 30, 3 maços. E ainda hoje, quase aos 50 de idade, a coisa ainda anda por aí.

Vamos, por conseguinte, arredondar as contas, a ver se facilitamos os cálculos ao tal senhor que pretende saber "quantos maços de tabaco são precisos para matar uma pessoa".

Então, temos: 30 anos, são 10.950 dias. A 2 maços por dia, dá um total de 21.900 maços. Isto vem a dar o bonito número de 438.000 (gramas ou cigarros), o que equivale, arredondando, a 438 quilos!

O que significa estar aqui este vosso amigo, não tarda nada, já praticamente sepultado debaixo de quase meia tonelada de maços de tabaco, o que, note-se, seria chato se não fosse cómico. Ou trágico, se olharmos aos números por outro prisma, o económico: de facto, se multiplicarmos o número de maços consumidos até hoje pelo preço facial actual, chegamos a uma cifra que daria para adquirir, por exemplo, um bom carro ecológico, uma casita na zona J de Chelas, ou uma piscina repleta de leite de burra (65.700 € dão para muita merda), com a agravante de que não teria enchido a mula aos gulosos do fisco, no processo, ao longo deste tempo todo.

Mas enfim, seja pelas alminhas, eu cá andava há que tempos curioso, e agora pronto, aqui fica o depoimento, aqui ficam as continhas. Que ninguém diga doravante que não sabe quantos maços de tabaco são precisos para matar um homem. São cerca de tantos, vezes xis, a multiplicar pela altura do homem, vezes a raiz quadrada da idade do pai da tia do dito homem, a dividir pelo número de beatas que o gajo consegue contar num cinzeiro cheio. É facílimo de calcular, como se vê. Ou é isso, ou então é encher uma caixa de chumbo com maços de tabaco, içá-la com um guincho ao alto de um prédio, meter um homem por baixo do guincho e largar a caixa lá do alto para cima do dito homem. Aí, é garantido. Pum. Morreu. Foi do tabaco.

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Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

Arqueologia da fumaça

(...)
Quando não estava no Laboratório estava na Biblioteca, na mesma cadeira, a que enfrenta a porta de entrada da sala mais recolhida. Ao entrarmos na primeira sala fazia-se anunciar pelo aroma doce do fumo do cachimbo. De tons azulados desenhava
no ar figuras que os olhos acompanhavam, por vezes sonhadores.
Por detrás do fumo olhava para nós...muitas vezes...também doce. Outras vezes crítico ou irónico, mas sempre acolhedor, amigo, generoso e Professor.
(...)
Era o dia em que o Professor vestia a bata. Empunhava numa mão o cachimbo e na outra o martelo de reflexos e avançava para o doente. Quando começava a ouvir o relato da história apoiava o pé na trave lateral da cama, começava a carregar o cachimbo, calcava o tabaco e depois acendia o fósforo, lentamente. Por vezes ficava suspenso nas palavras do interno e deixava apagar o fósforo que acabava por arder num sacrifício inútil. Finalmente o fumo surgia como se fosse revelador de uma decisão interna, conciliar, que levava à formulação das hipóteses de diagnóstico. Eram bons momentos de ensino prolongados, por vezes, na biblioteca à procura da confirmação das hipóteses.


Excertos de «Prof. João Alfredo Lobo Antunes - Uns olhos por detrás do fumo», por Alexandre Castro Caldas, Director de Serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria, Lisboa; Professor Catedrático de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
Publicação de Sociedade Portuguesa de Neurologia, Revista Sinapse, Maio de 2002.

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